Trecho do romance biblico O Estigma do autor Mário de Méroe

05/08/2017 12:08

O Estigma

Capítulo 13

I) Um desastrado golpe de lança

II) Um suposto plano dos essênios.

(Excertos revisados do livro O Estigma, capítulo 13, pág. 97 e segs.)

 

Mário de Méroe

 

I) Um desastrado golpe de lança

   (contexto: no final da crucificação de Jesus)

 

Ali estava o soldado, perfilado diante do centurião Tomelinus, acompanhando, a contragosto uma execução, e recebendo uma ordem comum, mas que mudaria o curso de muitas vidas, por séculos afora.

─ Vá até à cruz do centro, e examine o condenado. Se estiver imóvel, dê-lhe um golpe curto e rápido com sua lança, apenas para certificar-se de que está realmente morto. Basta espetar superficialmente a carne e observar se há alguma reação, disse o centurião.

Ao ouvir a ordem, o legionário titubeou, tentou contemporizar, mas foi-lhe ordenado a cumpri-la. A dura disciplina das tropas romanas não tolerava nenhuma desobediência ou tergiversação. Insurgir-se contra uma ordem superior tinha como consequência imediata a morte.

Resignado, o soldado empunhou sua lança e aproximou-se do homem da cruz central para golpear-lhe o flanco direito. Pretendia uma fazer um pequeno corte, superficial, apenas para cumprir a ordem recebida.

Maximus já havia participado de pequenas operações militares para conter revoltosos, enfrentar salteadores e outras atuações rotineiras, como afastar os mendigos das sinagogas e lugares públicos frequentados por autoridades e “pessoas de bem”.

Em uma dessas excursões, ao tentar amavelmente convencer um mendigo a afastar-se, o legionário recebeu dele uma mordida no braço direito.  O mendigo era ladrão conhecido no local, e estava contaminado com lepra, já em estado avançado. A mordida transmitiu ao soldado a doença do mendigo, que se espalhou rapidamente por seu corpo, especialmente nos ombros e braço direito.

Sabendo que na época não havia medicação para tal doença, e temendo ser confinado no local destinado aos leprosos[1], fora da cidade, e assim terminar seus dias esquecido[2], o soldado ocultava as feridas com o manto vermelho usado pela legião, o qual nunca tirava, apesar do calor. Sabia que sua vida seria de curta duração.

Assim, o sangue, a doença e a violência não lhes eram estranhos. Mas ferir um corpo inerte, indefeso, repugnava-lhe. Era frontalmente contrário ao mote “força e honra”[3], das legiões romanas. Mas era uma ordem e o soldado deveria cumpri-la.

Com relutância, aproximou-se da cruz central, evitando olhar para o rosto do condenado, que parecia dormir, com uma expressão de paz no semblante. O soldado apontou a lança e encostou-a no alvo imóvel, para testar se havia alguma reação. Posicionou a lâmina entre a quinta e a sexta costelas.

Porém, estranhamente trêmulo e assustado, tropeçou no momento em que a arma tocou o corpo, e a lança, empurrada pelo peso do legionário, penetrou profundamente no lado direito do homem crucificado, provocando intensa hemorragia.

Imediatamente, um grito de revolta pareceu brotar do grupo de homens de vestimentas brancas. Uma das mulheres, aquela que havia dado a bebida ao condenado desmaiou, e foi amparada pelas suas companheiras. Os soldados observavam a cena com indiferença, pois já estavam acostumados com esses incidentes.

Transtornado, o soldado retirou a lança totalmente ensanguentada. Do ferimento, além de sangue escurecido, jorrou água em abundância, banhando seu braço e ombro direitos.

Horrorizado, ele procurou uma poça de água, que havia se formado com a forte chuva e lavou-se, demoradamente, pois a água que emanou do corpo parecia ter aderido à sua pele. Terminada a ablução, extremamente surpreso, ele verificou que o braço direito e seu ombro estavam limpos, com aparência sadia. A água que saiu do corpo daquele Justo havia removido a terrível doença que contaminava o soldado que o feriu.

O legionário lavou também a lança e constatou, com grande espanto, que o metal luzidio de momentos atrás perdera o brilho e apresentava-se degradado, como que corroído por um mal misterioso. Seu aspecto era horrível e repugnante. Da lança cuidadosamente limpa que o soldado portava, restou aquele objeto infame, que parecia exalar fluidos malignos.

Temendo mostrá-la aos supersticiosos colegas, o soldado afastou-se do acampamento, retirou a ponta de ferro da lança, embrulhou-a em um pano grosso, colocou-a em uma pequena caixa de pedra que encontrara, talvez um ossário abandonado, e a escondeu em uma gruta nos arredores. Marcou o local com uma pedra preta e retirou-se.

Muito emocionado, procurou seu comandante, o insensível centurião Tomelinus, e disse-lhe:

—Centurião, nós matamos um homem santo! e recebeu um seco “cale-se, imbecil!”

—Senhor, minha mão....

—Dane-se sua mão! Desapareça de minha frente, disse o centurião, cambaleando, quase a cair de bêbado.

Desolado, Maximus pediu dispensa do restante do turno, alegando estar doente.

— É um fraco, tem medo de sangue, grunhiu o centurião. Retire-se, nunca mais quero vê-lo.

O grupo de homens de aparência sábia, silenciosos, vestindo mantos brancos, que ele vira anteriormente, havia retornado, e todos olhavam o soldado com visível rancor. Alguns, mais exaltados, brandiam os punhos, ameaçadoramente.

 

 

II) Um suposto plano dos essênios.

(contexto: no final da crucificação de Jesus)

 

A atitude incomum do grupo de homens vestidos de branco teve origem em uma lenda, segundo a qual um grupo de estudiosos denominados essênios, dos quais Jesus supostamente seria o líder, ou, pelo menos, um membro de alto destaque, havia tentado salvá-lo da morte, utilizando seu profundo conhecimento de medicina, com os recursos da época[4]

Os essênios eram originários do Egito, e durante a dominação do Império Selêucida, em 170 a.C., formaram um pequeno grupo de judeus que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se até o vale do Nilo.

Consta que eram conhecedores de terapias e usavam ervas medicamentosas para aliviar o sofrimento dos enfermos. Algumas fontes os indicam como originários de uma Fraternidade Branca fundada pelo faraó Akhenaton, da 18ª dinastia.

Os zelotes, os fariseus, os saduceus, e os essênios formavam as quatro principais seitas dos judeus do tempo de Cristo, cada uma com seus princípios e tradições peculiares. Na época de Jesus, a seita dos essênios contava com aproximadamente quatro mil filiados, e tinham muitos admiradores, pois levavam vida simples, frugal, e preocupavam-se com a pureza espiritual.

Registros históricos apontam que eles desapareceram por ocasião da tomada de Jerusalém pelo general romano Tito, no ano 70, após dois anos de cerco à cidade, que foi destruída e sua população, dizimada. Em decorrência dessa incursão bélica, Israel teve seu território ocupado e deixou de existir como nação com fronteiras e território próprio. Cumpriu-se, assim, a profecia de Jesus[5] de que não ficaria “pedra sobre pedra” sobre Jerusalém.

Segundo essa lenda, o plano dos essênios, consistiria em narcotizar o condenado, que entraria em uma espécie de estado cataléptico; a seguir deveriam retirá-lo da cruz como se fora morto, escondê-lo e depois reanimá-lo, com suas poções e técnicas milenares, altamente secretas.

Tudo estava programado para o sucesso da missão, desde a proximidade do sepulcro provisório com o local da crucificação, o líquido que foi dado a beber a Jesus, que teria provocado rapidamente sua “morte”, a supressão da burocracia pela intervenção discreta de uma alta autoridade, no caso, o senador José de Arimateia, que emprestou o sepulcro recém-lavrado, localizado em um jardim de sua propriedade e que não havia sido ocupado por ninguém, e sua mediação diplomática para que o Procurador Pôncio Pilatos liberasse o corpo sem maiores indagações; enfim, um conjunto de medidas efetivas que levariam a bom termo o objetivo do grupo. 

Mas a atuação desastrada do soldado fez ruir o suposto plano tão meticulosamente elaborado. A lâmina que penetrou profundamente o corpo de Jesus perfurando seu ventre, pulmões e coração, destruíra qualquer possibilidade de que sobrevivesse. Mesmo que ainda estivesse sob os efeitos dos narcóticos, o ferimento e a hemorragia provocada teriam lhe causado a morte de maneira inequívoca.

Nenhuma dúvida mais poderia subsistir a respeito de sua morte, testemunhada pelos presentes, entre eles alguns seus discípulos, familiares e demais seguidores, declarada pelas autoridades religiosas (a quem interessava pessoalmente a morte desse homem) e os militares encarregados da execução, que elaboraram minucioso relatório de todo o ocorrido. Após cumpridas todas essas formalidades, o ato foi registrado formalmente nos anais do Império Romano, conforme praxe, certificando, definitivamente, a histórica ocorrência[6].

Assim, um inesperado golpe de lança, desferido de maneira fortuita, acidental e alheio a quaisquer planos, selaria o mais caro fundamento de uma fé que se criara naquele momento, e se firmaria para todo o sempre, em todo o universo!

 

 



[1] Na época de Jesus, os leprosos eram confinados em cavernas, ou ficavam às margens dos caminhos.  e comiam o que os peregrinos lhes ofereciam, ou as sobras. Eram considerados impuros e banidos da sociedade. Não podiam aproximar-se de ninguém, sob pena de morte.  Na prática, não eram considerados seres humanos.

Adaptado da fonte:http://www.claretianos.com.br/servicobiblico/.

[2] Segundo Lucas 17: 12 e segs., somente Jesus aproximou-se de um grupo de leprosos, rompendo com a mentalidade segregacionista que divide o mundo em puros e impuros, sagrados e profanos.

[3] “Força e Honra” era o mote do exército romano, retratado recentemente no filme O Gladiador, direção de Ridley Scott.

 

[4] Os essênios conheciam as propriedades do Cocculus e da Staphysagria e os efeitos estupefacientes que uma associação apropriada dessas e outras ervas poderia provocar.

[5] Conforme Lucas, 19,43: Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; 44: E te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação.

[6] Esse acontecimento, embora pontual, teria sido um dos alicerces da Fé cristã, segundo a qual Jesus de fato morrera na cruz, e ressuscitara após 3 dias.

 

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