Fim de semana na Água Branca

27/11/2014 17:00

Mário de Méroe

Fim de semana na Água Branca

 

Não gosto dos finais de semana, especialmente dos domingos. Na região onde moro, tudo fica parado, inerte; o ruído característico e a poluição costumeira ficam ocultos. As ruas e a célebre pracinha ficam desertas; o pequeno universo não-comercial parece entrar em estado doentio, semicomatoso, vazio... com exceção do Parque da Água Branca e do Clube Palmeiras, que recebem frequentadores fieis, quase compulsivos.

Terrível agravante: o Conde Chico, meu restaurante preferido, não funciona nos finais de semana.

Seus proprietários, os adoráveis Mara e Carlinhos, via de regra curtem esse período em sua fazenda com familiares e amigos, deliciando-se com um poderoso churrasco regado a cerveja e caipirinha de vodca. Entre os amigos, destacam-se os atenciosos funcionários e as delicadas meninas que se movem com a graça e leveza das danças do ventre. Essas preciosidades humanas compõem a equipe do Conde Chico, capitaneada com mão de ferro pelo Chef (com sua carranca funcional e o indefectível boné colocado com a aba para trás), e também lá se reúnem para comemorar a folga semanal. Pode, uma coisa dessas?

No lago da propriedade, grandes peixes nadando graciosamente fazem a alegria dos visitantes. Sempre acalentei uma leve suspeita que o enorme pacu que o Carlinhos segurava nos braços quando tirou as fotos exibidas no Facebook fosse de plástico... Mas ele afirma que não, que acompanhou pessoalmente o rápido e inexplicável crescimento daquele peixe, e tal e coisas assim. Eu acredito; afinal, é meu amigo!

Apesar dessa alegre divagação, continuo não gostando dos finais de semana. Uma pausa nas atividades rotineiras pode até ser benéfica, mas para mim assemelha-se a uma interrupção da própria vida. Especialmente quando falta o sinal na internet. Curiosa invenção do homem, que agiliza a comunicação, os negócios, a informação. Mas o criador tornou-se dependente da sua criatura: que se faz sem internet? Nada; estamos subjugados por essa infame tirania. Privado de seus contatos on-line, sem jornais, boletins e informações, o homem, nas grandes cidades fica isolado, literalmente off-line, na mais cruel “solidão interativa”, vagamente saudoso, talvez, de uma relação humana.

Saudade do tempo em que as pessoas ainda conversavam, escreviam cartas, bilhetes, telegramas, visitavam-se. As horas deslizavam suavemente, dando tempo para se fazer tudo, sem atropelos. A vida era menos cômoda e mais real.  As “gostosas” eram de carne e osso, macias e agradáveis à vista e ao toque. As exibidas de hoje são apenas fotos, possivelmente adulteradas pelo fotoshop ou pela ação inclemente do tempo decorrido entre a data da foto e sua divulgação. E o “papo” então! Na imensa maioria das vezes, abreviaturas ininteligíveis, erros grosseiros de ortografia, pontuação ignorada, superficialidade, ausência de sinceridade, de conteúdo; palavras, apenas palavras, e mal escritas.

Outrora, as amizades eram concretas e duradouras. Hoje são virtuais, informatizadas, da saudação temerária a quem nem se conhece, às compras. Se o contato desagradou, bloqueia-se, simplesmente. Não é mais necessária uma explicação polida, por respeito à pessoa. Um clique e pronto.

Nem preciso ir ao shopping. Os próprios vendedores indicam: visite nosso site!!! Compro livros e objetos de uso pessoal pela internet. A antiga conversa com o vendedor foi substituída pela voz do porteiro do prédio anunciando ao interfone que chegou uma encomenda.

Às vezes sinto saudades das tentativas dos vendedores para “empurrar” algo de que eu não precisava, mas que ele tinha “meta” para vender!

Enfim, o mundo era para os humanos. Hoje, é para os internautas. E não me acostumei ainda com essa desapropriação.

 

Colunista Divulga Escritor

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